segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Vanessa Mata

Pegar em flagrante meu marido ouvindo a portas fechadas músicas de Vanessa da Mata foi pior do que, em seguida, descobrir sua conversinha particular, pelo msn, com uma antiga namorada e atual admiradora.
Desgraçado me presenteou com o cd da cantora no meu aniversário, e reclamava sempre quando escutava na sua presença, manifestando seu mal-estar com as canções estridentes e irritantes da cantora, agora espera eu dormir pra ouvir sozinho. Sozinho???
- O que tá acontecendo?
Esbravejei abrindo a porta.
- Oi amor...to aqui terminando o layout.
Respondeu o dito cujo amedrontado.
- Layout o escambal. Que direito tomas de ouvir Amado, e ainda...deixa eu ver? Ah, tinha que ser com essazinha!!! E ainda Vanessinha da Mata fazendo companhia? Que covardia!
- Amorzinho, vai dormir, não é nada disso!
Tomei o teclado e expressei minha indignação com a terceira pessoa que, por falta de tecnologia disponível, não podia ouvir a gritaria.
Olha aqui QUERIDA, você não me conhece e reze para não cruzar meu caminho. Você gosta de Vanessa da Mata? Pois se gosta é melhor mudar de opinião. Você sabia que ela mudou de nome hoje? Pois é, agora se chama Vanessa Mata!!
- Para com isso, não tem nada a ver, ela vai achar que você é louca.
- Louca eeuuu??? Você bem não me conhece, e menos ainda minha relação com Vanessa. Traidor, preferia te pegar curtindo Vanessa Camargo...quer saber? Se você preza por sua integridade, Vanessa da Mata não entra mais nesta casa! Se quiser, vai ouví-la na p..q..p...!!!
O traquino ejetou o cd, na intenção de silenciar a trilha sonora e minimizar meu destempero. Quando ia guardá-lo aproveitei para executar o movimento de samurai que aprendi no filme Karatê Kid. Num único golpe parti Vanessa ao meio.
Cd quebrado, marido quase assassinado, e Maria Carolina elegida top na minha seleção musical, pois se eu pegá-lo ouvindo vou pedir o divórcio sem discussão. Homem que gosta de Maria Carolina nem passa no meu crivo, vai direto passear no Shopping Frei Caneca.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

cópula

Dois corpos nus. A cama macia e pequena, esmagada pelo peso desajeitado de dois.
Caio e Amanda pareciam a vontade. Antes de deitarem esvaziaram uma garrafa de cerveja importada no quarto, ouviram o cd de Milton Nascimento, riram e esquivaram-se de quaisquer formalidades. Quando Caio apareceu desnudo no quarto iluminado apenas pelas luzes da rua, após uma breve retirada, Amanda já estava posta só de calcinha na cama. Antes de se juntar a quem já o esperava deitado, Caio se encostou na janela e deu um único trago de cigarro. A janela do quarto, no segundo andar do apartamento de Caio, dava para os fundos de uma casa simples e silenciosa, apesar dos hábitos noturnos de seus moradores.
Caio pensou:
Será que ela gosta de Milton Nascimento? Agora já foi, deixa rolar. Não consigo ver o corpo dela direito...mas seus olhos brilham, linda! Sua pele é tão macia, espero que não perceba minhas mãos ásperas. Como tocar essa mulher, começo onde?
Amanda pensou:
Nossa, que vergonha. Por que não deixei pra outro dia?? Ainda bem que ele não acendeu a luz. Essa música não tem nada a ver. Ele é lindo mesmo no escuro, seus olhos brilham! Vou me apaixonar. Gosto do seu cheiro, sua barba...onde começo a tocar?
Sem notarem, seus corpos se entrelaçaram . A primeira copulação era desconcertante para ambos. Haviam acabado de se conhecer num barzinho da esquina e poucas horas depois estavam em uma situação pretensiosamente carnal. Um começo natural, para um homem e uma mulher simultaneamente atraídos.
Os corpos se encontravam, se perdiam, a intimidade timidamente estava em construção. Suas mãos deslizavam nas costas, coxas, pêlos... Caio com sua máscula segurança se apoiava nas vivências passadas e tomava a frente. Amanda consultava suas remotas experiências românticas, se valia das sensações. A cópula aconteceu lentamente até um gozo inesperado dar partida a outro e glorificar a transação, o acaso dos prazeres inesperados.
Os dois caminharam nus até a janela, fumaram o último cigarro e admiraram a mulher batendo o tapete no quintal.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Chinelos de ouro

- Susi, Susi Quillll, cadê você??
Saí gritando pela produtora que trabalhava, em Belém.
- Lio, que gritaria é essa? Tô terminando de almoçar. Sossega menina!
Olhei rápido os chinelos nos pés de Susi. No momento era o único chinelo que podia me salvar.
- Susi, além desse chinelo velho no teu pé, tu tens outro ou algum sapato aqui?
- Que história estas inventando?
- Rápido Susi, é sério!
- Claro, não venho pra cá com isso, uso sapatos.
- Sem direito de dizer não, me dá teu chinelo pink e em troca te darei um novinho e mais bonito.
Susi, a camareira da produtora, não tendo tempo de questionar passou-me o pedido. Peguei os chinelos quentinhos e corri para a porta da rua.
Nunca acreditei em milagres, mas neste exato ano de 2005 passei a creditá-los. Um ancião vendia cafezinhos num carrinho de feira, e no horário de almoço tomou seu caminho pela rua do meu trabalho. Eu, já fastiada e um pouco entendiada, usava o resto de folga para olhar, da janela de vidro peliculado, a rua deserta assombrada pelo sol escaldante do ínicio da tarde. De longe avistei o velho no outro lado da rua, vagarosamente empurrando seu carrinho.
Uma figura pronta para minhas reflexões, se não fosse uma banda de seus chinelos escangalhar na frente do meu exato olhar. O momento parou ali mesmo, pra ele, pra mim. Sem sucesso ele tentava ajeitar sua carcomida ferramenta de trabalho, e eu imaginava como o senhor conseguiria voltar pra casa descalço de um pé, no asfalto quente de Belém.
Em menos de cinco minutos escancarei a porta da produtora com os chinelos nas mãos. O senhor concentrado na sua questão não notou minha presença.
- Senhor...aqui...pra você...
Entreguei a ele os chinelos e vi em seu olhar algo desconhecido. Um pequeno olhar descrente modificado pela aparição de um desejo impensado. Um inesperado presente, que apesar de necessário não foi pedido, surgiu do nada, do repente, de onde?
Seu espanto esquivou qualquer palavra e cometeu os melhores agradecimentos. Suas mãos carregadas com os chinelos púpuros, oscilaram reações precisas, demorou alguns minutos para se dar conta do fato. Voltei para a janela e consegui alcançá-lo, já calçado de rosa, e guardando seus velhos chinelos no carrinho.

Por milagre imagino:
O milagre é a precisão urgente onde o tempo pra pedir não dá tempo de pedir. Quando a escuridão não simula saída, o mesmo breu faísca uma possibilidade.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

sábado, 2 de outubro de 2010

a beleza sabe ser

A beleza é medida pela falta dela, se dá pouca atenção a beleza genuína. Mulheres fantasiadas são bem quistas.
O que há por trás de um cabelo escovado, unhas pintada, e uma roupa bem composta? Me perguntei sem responder quando percebi um alguém olhando minhas unhas dos pés, que a semanas estão negligenciadas por falta de tempo e vontade de ir a pedicure.
O que pode ter de belo por trás de um esmalte rosa mangueira vencido nos dedos dos pés? Respondo: A beleza de uma muher que trabalha, estuda e cuida dos seus pequenos grandes prazeres. Uma mesma mulher que adora ler, e prefere fazê-lo ao perder uma hora de relógio, ou mais, no salão de beleza. Uma mulher que troca o tempo de adornar-se para curtir um passeio no parque com o filho ou uma conversa alcólica entre amigos. Uma balzaquiana que se dá ao luxo de limpar as fezes da sua gata, passar suas calcinhas, e criticar a novela em troca de gastar suas folgas no shopping contabilizando as novidades da estação que pode ou não comprar.
Existe beleza mais genuína que uma mulher que toma seu tempo cultivando seus prazeres, ao invés de tentar cativar os desejos dos outros?

quinta-feira, 30 de setembro de 2010


Meu maior receio é ficar louca e alguém me reconhecer, ou todos ficarem loucos e eu passar despercebida.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

" Qualquer expressão artística que seja fundada na emoção, na verdade, pode mudar o mundo"
(Eliane Lage)

sábado, 28 de agosto de 2010

bela matisse


Bela Matisse Lio Chaves
(by Patricia e Hugo Lio Chaves)

Matisse foi o primeiro nome que elegi para minha gata amarela e branca. Em seguida meu filho quis trocar seu nome por Bela, bati o pé e sugeri Bela Matisse. Dias depois a bichana já era da família e levou o sobrenome.
Matisse foi um presente que ganhei do acaso, quando meu filho e Igor estavam passando férias de julho em nossa cidade natal, Belém. Ela estava na portaria do meu prédio quando cheguei de um happy hour. O portão se abriu, a gata miou e acariciou minha perna. Judiação, deve estar fome, pensei. Perguntei ao porteiro o que ela fazia ali, ele disse que há um mês estava vagando pelo prédio, de vez em quando comia uns pedaços de pizza que sobravam, e brincava com as crianças. Subi com a gata até o apartamento, preparei um bife e ela devorou ferozmente alguns pedaços, não satisfeita andou com suas patas de gata pelo apartamento inteiro, parecia sua casa.

Não tinha a intenção de criar um gato, além do que, Igor não os simpatizava. Peguei a gatinha no meu colo e levei-a de volta para o térreo. A bichinha miou e arranhou com desespero a porta de
vidro que fechei para nos separar. Não tive saída, abri a porta e agarrei a bonita.

-Vou cuidar de você, e você da nossa família, pensei em voz alta e embriagada.
Nem sabia que ela era gata ainda, por isso pensei em chamá-la de Matias, logo mudei de idéia e optei por Matisse, em homenagem ao pintor Henri Matisse, além do nome ser útil no sexo ainda indefinido.
Um mês depois, Matisse já é da família. Hugo não larga a bichana e a inclui em algumas de suas brincadeiras, e vice-versa. Igor ainda anda em negociação, mas cuida dela melhor que eu.

Estava a tempos pensando em ter um bicho de estimação, mas não tinha coragem de assumir o compromisso. Matisse apresentou-se, arriscou-se a uma possível e previsível cuidadora, não consegui recusar. Agora, também faz parta do Outro Lugar ao sentar no meu colo enquanto escrevo.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

sonhagem


Sonhei que estava na beira de um penhasco e tive vontade de pular. No sonho, meu desejo era tão verdadeiro que me atrevi a realizar tal vontade. Pulei e comecei a cair, cair, cair. No meio da trajetória me dei conta da merda que tinha feito. E agora? Vou morrer! Pensava em pânico. Nesse desespero inenarrável percebi que estava sonhando. Sonho?
-Isso, meu bem! É um sonho, não precisa se preocupar, você pode acordar quando quiser!
Falou-me a voz da minha aparecida consciência sonhante. Relaxei e não lembro o que aconteceu em seguida. Acordei e segui meu rumo.

Tempos depois, conheci Ismália em um momento de descontração boêmia entre amigas de trabalho e coração, quando uma delas, Pati (com esse nome não podia esperar menos), após ouvir meu relato quase junguiano do sonho, recitou, em voz leve, a poesia Ismália.
A noite experimenta e coloca todos os poetas de pensamentos e ideais longe de sua cotidianidade e perto da inquietude humana. Podemos flutuar em paz e reduzir culpas e culpados de todo dia. Pulamos, curtimos, caímos, sofremos e acordamos quando quisermos, pois a vida se não é sonho, tem todas as suas melhores características. Umas poucas cervejas depois da labuta, não há quem pague!



Ismália

Alphonsus de Guimaraens


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...
Pelo olhar o escritor experimenta a vida dos outros.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

fotógrafo luis humberto





"Uma pessoa descontente é um potencial criativo"

"Brasília: os lugares são plasmados para tempos de liberdade"

"Vale a pena um país que vale a pena, mesmo sendo fascinante é inviável"

"O cerrado é uma lição de como os diferentes convivem"

"Eu lego o futuro ao futuro, ele que resolva, eu fiz a minha parte"
(Luis Humberto)

Frases do Fotógrafo Luis Humberto que pesquei durante uma entrevista que fizemos na sua casa, para um trabalho audiovisual, numa bela manhã de sol e céu azul de Brasília.
" O céu é o mar de Brasília" (Lúcio Costa)

Luis Humberto
Hoje com 75 anos, nasceu no Rio e foi parar em Brasília em 1962. Começou a fotografar fazendo fotos do filho. Trabalhou na UNB, como professor de artes, até 1965, ano que aconteceu a demissão coletiva na UNB, época dura de ditaura militar no Brasil, um tempo de silêncio. A partir daí teve que correr atrás de outra vida profissional, passou pela Abril, Isto É, e chegou a diretor executivo da Fundação Cultural de Brasília, e em 1986, voltou pra UNB, mas continuou com a fotografia em paralelo. Contribuiu para a história recente do Brasil, nas últimas quatro décadas, deixando um legado de fotografias jornalísticas e poéticas. Quando perguntei qual era sua relação com a fotografia em Brasília, ele respondeu: “É a minha cidade, o palco onde rolou minha vida, lugar perfeito para fotografar”.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

procura-se patricia lio

Onde estou? Me procuro. Como me acho por hoje? Sumi sem me avisar. Fui em todos os recantos possíveis a minha procura. Passei nas produtoras de São Paulo, nos bares, cinemas, teatros, livrarias. Não me achei. Meu Deus, onde fui parar? Meus amigos não me viram hoje. Meu telefone está fora de área, na minha casa ninguem atende a porta. Fui atras dos meus filmes prediletos, não me achei. Entrei no livro que estou lendo " O Falecido Mattia Pascoal", cheguei até a procurar nos lugares mais inóspitos do Brasil. Pensei em ir no exterior, seria inútil. Onde acho Patricia Lio? Onde??Até Enio Morricone não me viu hoje. Minha mãe não me encontrou, meu amor enciumou, meu filho não tentou, pois seria vão. Fui atras dos sorrisos, poesia, pintura, detalhes, vidas, mortes, tristezas, do sol em partida. Onde acho minha figura? Desesperadamente procuro por mim hoje. Alguém pode dar uma pista?

sábado, 5 de junho de 2010

silêncio


" O silêncio é um dos argumentos mais difíceis de refutar" Josh Billings

não quero ouvir minha voz hoje
quero ficar ficar com o silêncio da tua companhia
ouvir o som da tua fala muda
deixar tua sandália perto do meu tênis
teu computador ao lado do meu
tuas músicas e as minhas ao mesmo tempo
o francês e o inglês
baixo o meu som, para você baixar o seu
assim o silêncio fica mais audível
podemos ouvi-lo

o uivo da rua morta, as garrafas já quebradas, os carros diminutos, as pessoas que antes passaram ...

parece que nós dominamos o silêncio da noite
apenas parece

tem um mundo de silêncios no mundo
um tanto de sons apagados

não o inventamos
já existia o silêncio antes que nós o propuséssemos.

"O silêncio está tão repleto de sabedoria e de espírito em potência como o mármore não talhado é rico em escultura." Aldous Huxley, in: Contraponto, (1928)

azar x sorte

Tudo pra mim é uma questão de olhar, até um pedaço do céu ou do inferno caindo na minha cabeça merece considerações.

Véspera do feriado de Corpus Cristhi andando em direção ao banco decido ir por um caminho que não costumo fazer, sei lá, pra encurtar alguns metros, fugir da rotina e descobrir novas paisagens urbanas do bairro onde moro. Pois bem, entrei na Rua da Glória na Liberdade, ouvi um estrondo e em menos de segundos um objeto acertou em cheio minha cabeça. Minha nossa, não era manga, era um pedaço de uma janela que com o vento forte do fim das tardes invernais em sampa se quebrou, escangalhou, descolou e foi parar certeiro na minha cabeça. Vi estrelhinhas e levei uns segundos para entender. Alguns passantes assustados pararam pra me acudir, e viram que a o pedaço da janela era tipo um acrilico, não era vidro, pra consolar o que me sobrava de sorte. Na minha testa um pouco mínimo de sangue. Um comentário de um dos passantes: - Que absurdo essa cidade! Ainda bem que não foi uma criança!. Pensei, é né, ainda bem que não era uma criança e foi na hora que EU ESTAVA PASSANDO! Mas tudo bem, não foi nada de mais, foi apenas um susto com um toque de azar, sorte, ou banalidade qualquer.
Como tento tirar vantagem de quase tudo, posso me considerar uma mulher muito sortuda. Estava eu passando por aquele local, na exata hora, só poderia ser pra mim aquele entulho voador. Creio que minhas chances de passar por essa experiência novamente sejam ínfimas, quase como encontrar um bolo de notas de cem reais no chão, ou ser o único ganhador da mega-sena da virada. A marquinha que exibo em cima da minha sobrancelha esquerda se mostra vaidosa ao espelho, abençoada pelo destino ou acaso, e com esperanças de ser contemplada da próxima vez com melhores surpresas . Posso ser mais feliz? Ainda tive o cuidado do meu filhote quando de noite tocou cuidosamente minha testa e perguntou: - Mamãe tá doendo? Não tá doendo e acho que nada é por acaso. A sorte parece ter a mesma aparência do azar.

sábado, 22 de maio de 2010

feriado pessoal

FERIADO PESSOAL (por: Patricia Lio).

Quando for possível olhar o dia sem maiores compromissos, um dia comum, normal, será um feriado.

Quando um gato amarelo cruzar o telhado vizinho, e o gato voltar preto no mesmo telhado, pode ser que já seja feriado, afinal nem todo o dia a despretensão alcança tal observação.

Quando encontrares um amigo sem idéias concretas, fácil de adoçar seu momento, terás um feriado.

Quer dizer que você acha que acontecimentos assim não tem importância? Você acha mesmo que quando uma janela se fecha e você não vê quem fechou, é simplesmente um acontecimento qualquer? Você acredita que ver um homem subir no telhado é normal, qualquer um poder ver isso a qualquer hora? Pois pra mim é feriado, hoje. Feriado Pessoal. Não importam quantas pessoas se propuseram a trabalhar, quantas outras não, e tantas a correr o dia quase inteiro. O acaso nos elegeu este dia. Será decretado para nós o Feriado. 19 de maio. Dia intranacional do encontro casual de dois amigos a procura do inalcançável dia.

19/05/2010.

FERIADO PESSOAL (por: Bruno Genú).

Nem Bertolucci nem muito menos uma linda cidadezinha do interior da Itália, eram apenas de dois amigos que, como as pessoas mais comuns que existem, não sabiam o que queriam da vida, pelo menos até aquele dia..., na verdade era tarde... bairro da Liberdade, centro de São Paulo, dezenove de maio de dois mil e dez, numa sacada de prédio, alimentados apenas por algumas cervejas e alguns cigarros, algumas coxinhas e um filme no DVD que ninguém teve a iniciativa de apertar o play.

Ele desempregado, mas com umas duas semanas de crédito antes de entrar em desespero; ela como free lancer há meses (sensação de desemprego constante), mas com maior facilidade para lidar com o assunto. Daí, diziam que queriam viajar se não fosse isso ou aquilo, que queriam abrir um negócio para que pudessem mudar de vida – planos oriundos de uma mesma fonte que por uma questão de minutos são completamente antagônicos, mas ilustram bem a falta de perspectiva futura que aquela cidade cinzenta e momentaneamente fria lhes empurrara goela abaixo, ou por estarem esgotados de tanto tentar justificar o que faziam ali...não, não na sacada, não, não em São Paulo nem na quarta-feira que era, mas ali, exatamente naquele momento das suas vidas.

Especula-se que deveriam estar dentro de um escritório de design fechando arquivos para gráficas ou brigando por telefone com a empresa que não entregou os equipamentos no dia marcado para o início das filmagens de um novo comercial de motos esportivas. Diz-se também que era para estarem numa sala de cursinho, no meio de uma aula de direito tributário, posto que a Receita Federal abriria em breve, vagas para auditor fiscal. Pra eles, deveriam estar na sacada. Era feriado. Nem Dia do Trabalho, nem Aparecida... Pessoal.

19/05/2010.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Profundezas da leveza,
Por mais uma, duas, cem vezes, permita-me caminhar pelo meu infinito e acreditar que cada movimento minimamente impensado, ou o contrário, faz parte do andamento encantado do mundo.
Deixa meu corpo, por certas milhares de vezes, envaidecer a paz do seu interior, sem culpar os mistérios dele próprio.
Derrame essas lágrimas que insistentemente inexistem, e as escoa da ponta dos meus olhos até onde forem capazes de virar passado.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

conto pra perfurmar















- Você já teve a sensacão de querer ir e ao mesmo tempo a sensação de querer ficar?
Me disse Al Pacino no filme Perfume de Mulher. A resposta era sim, mas evitei ser óbvia naquele momento e convidei-o para dançar, e Piazzola tocou na vitrola. Pedi uma pausa e corri pra vestir o único pretinho básico que encontrei no armário. Al Pacino me apresentou seu amigo, e em seguida me puxou pra dançar. No meio da sala aprendi a dançar tango, leve e sensual, uma puta donzela entrelaçada nas pernas de Al Pacino.
Meu namorado chegou e me tirou da cena. Que saco! Pensei. Segui minha história paralela, mas não tirei da cabeça a idéia de querer ir com Al Pacino e ao mesmo tempo querer ficar com ele. Pintei meu cabelo de ruivo, concluí o mestrado em ciência politica, larguei o namorado inconveniente, e fui dar aula em um colégio tradicional americano.
Enquanto isso, Al Pacino e seu amigo se aventuravam e procuravam esquecer seus largos problemas existenciais. Não conseguiram, mas cresceram juntos. Fui encontrá-los tempos depois, o que para eles significaram rápidos dias, pra mim um pouco mais.
No meio do colégio cheio de alunos, com poucas trivialidades Al Pacino disse para todos em voz alta:
- Eu sempre soube o caminho certo, e sabe por que não o segui? Porque era o caminho mais dificil!
Sorri e a luz do sol instantaneamente iluninou minha cabeleira. Meu perfume ressoou e logo Al Pacino me reconheceu, e disse que saberia como me encontrar, e ... acabou o filme. Quase fomos felizes pra sempre.
Depois de tantos anos, ainda espero Perfume de Mulher II.

seres platônicos

Tava lembrando, aproveitando o trânsito parado da Rebouças, das minhas paixonites na adolescência. Recordei de um momento quando tinha 16 anos, em um ônibus qualquer de Belém, precisamente na Avenida Generalissimo Deodoro (adoro esses detalhes pra rechear cenários), e dei por mim sobre amor platônico. Na época estava apoixanada por um moço, que dizia sentir o mesmo por mim. Ele mal me ligava, sumia do mapa de vez em quando, mas quando me encontrava compensava sua displicência com lindas palavras de encantamento, e toques de arrepiar todos os fios de cabelos. Alguém tinha me dito neste dia sobre amor platônico, e eu comecei a avaliar meu setimento pelo rapaz. Neste momento tive uma vaga idéia do assunto, amor idealizado, não correspondido, um sonho vivido sozinho. Por uma lógica da idade me recusei a aceitar tal definição para o meu caso. De maneira alguma poderia passar pela minha cabeça que o rapaz não sentia o mesmo furacão sentimental que eu.
Hoje eu em outro ônibus, em novas ruas, e passados 14 anos, acho que estava, em parte, equivocada. Talvez todo o sentimento seja platônico, o que sinto pela minha mãe não é o mesmo que ela sente por mim, a amo e ela o mesmo, mas o sentimento é diferente. Dou outros exemplos, um amigo querido, pelo qual você daria vida, onde se completam em muitas coisas, ou quase todas. Um namorado, um marido, o qual você troca escova de dentes, contas, divide cama, cansaços e prazeres, você ama, olha nos olhos, riem , são felizes, querem mudar o mundo juntos, mas o sentimento não pode ser o mesmo, é impossivel. O princípio da diferença individual pode argumentar minha idéia, não somos iguais, como podemos sentir a mesma coisa? Nossas experiências e vivencias diferem, paladar, visão de mundo, livros lidos, escolas, escolhas, nossas vidas inteiras são coisas que só cada um sente, cada corpo, pele, jeito de ser, dores e cores que conseguimos enxergar.
Da minha experiência jovial, posso concluir que o moço não sentia o mesmo que eu, mas sentia algo que eu jamais poderia alcançar, assim como ele a minha paixão. Parece duro, mas não é. É lindo, sentimentos diferentes e unidos na mesma intenção de ser feliz.
Acho que no fundo da minha sobriedade todo amor é platônico, sozinho e idealizado. Não estou dizendo que não somos correspondidos, mas que os arrepios não são os mesmos, de um lado arrepia de uma forma, do outro lado, de diferente maneira. A recíproca nunca pode ser verdadeira, pelo menos não deveria.

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